sábado, 1 de dezembro de 2007

Agradecimento parte 2

Agradeço o conforto,
O estômago,
O alfabeto e o evangelho.
E peço perdão pela decepção.
De o conforto fadigar conforto,
Do estomago cheio me inspirar coragem,
De o alfabeto limpar minha garganta
E de o evangelho ser minha primeira crítica, quando ainda criança.
Ah, não me esqueço nunca da televisão.
Ela acelera meu sono,
Que nunca foi o mais tranqüilo.
Obrigada por tanta tecnologia,
Ela me ensinou que botões podem servir de cordas vocais e megafones.
Agradeço-te burguesia,
Por sua afasia.
E pelas lentes de contato.
Agora te olho sem sinais vitais,
Sem os meus sinais.

Nayra Matos

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Agradecimento – Parte 1

Obrigada por amortecer minha queda,
Por evitar minha desgraça,
Por poupar meu sofrimento,
Por tornar minha existência indolor.
Ensinou-me a ter consciência e gratidão,
E eu aprendi.
Satisfaça-se com o crédito
Pois ele é todo seu.
E a minha gratidão, também é sua.
Obrigada pelo sarcasmo,
Porque se consigo hoje te agradar,
É porque me ensinou a mentir.
Peço perdão pelo cinismo,
E pela decepção,
De tornar com ele uma crítica
Sobre tudo o que me ensinou.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Vida não é poesia

Não existe poesia na vida.
Nos cumprimentos, nas despedidas.
Existe obrigação, educação, tédio.
O tédio infiltrado na poesia.
Sempre suga, sempre o natural.
Alguns “bom dia” e nada real.
E a gente passa fome do profundo.
E a gente sente frio.
E o calor desaparece dentro de olhos e bocas.
E a gente mata todos os poetas,
Em uma chacina educada.
Tão educada e vazia,
Que os poetas sobrevivem à morte,
A morte real.
E morrem pro imoral.
Uma chacina quase suicida,
Quando o real passa a ser ilusão.
E eles carregam suas armas,
Com sua única munição:
O assassinato de um ser imortal.

domingo, 12 de agosto de 2007

Real Contradição

O mais triste é saber que não sentirei falta.
O mais triste é saber que a falta que sentirei,
Será vaga e rasa.
O mais triste é saber que poucos saberão como sou.
Tão poucos me conheceram,
Nessa contradição
E eu não perdi ninguém.
Meu pessimismo é natural
Espontâneo quando ponho os pés no chão
Piso firme, mas não afundo.
Quando todos dizem o contrário.
Eu não flutuo sempre,
Minhas asas estão nos meus pés
Um vôo a cada passo num solo
Tão real que viajo em ilusão
Ilusão tão breve quanto uma vida.
O tempo não espera o perdão
E a vida não espera o sentimento.
Ninguém vive hoje por amanha
Por mais que assim pense.
Essa é a única ilusão,
Pensar em amor,
Pensando em amanhã.
Quando o único caminho da felicidade
É saber não desejá-la.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Esqueça e Viva

Esqueça tudo.
O certo, o errado, o padrão, o limite.
Esqueça o convencional.
Esqueça a vida, o futuro, o presente e o passado.
Por um minuto só lembre de como se lê.
Lembrou? Conseguiu ler até aqui?
Agora pense no conveniente.
Pense no que você sente prazer.
Se você precisa de mais alguém para sentir este prazer,
Todos os padrões criados por você irão se encaixar
Em um limite de certo que lhe é conveniente.
A ética é toda sua.
O peso fica leve, viver fica menos insuportável.
E amar se torna possivel e agradável.
Pense no melhor pra você.
E acabará pensando no melhor para todos.
Mas pense com honestidade.

Nayra Matos

terça-feira, 24 de julho de 2007

Auto retrato

Tudo mudou.
Enquadrei-me.
Perdi-me.
Encontrei-me...
Perdida!
Eu não me viciei em antidepressivos!
Mas eu me viciei em cigarro...
Eu não me acabei em depressão!
Mas eu me apaixonei por ela...
E quando estou prestes a perdê-la,
Acendo um cigarro,
Fazendo com que ela volte.
Porque sem ela,
Não existe conflito.
Não existe inspiração.
Eu sou uma pessoa depressivamente alegre,
E alegremente triste.
Mas é quem eu sou, foi assim que eu me encontrei.
Pode não ser quem eu esperava ser,
Mas no fundo eu só queria ser alguma coisa.
Eu decepciono milhões,
Eu me decepciono.
Mas também me impressiono,
Sempre que me encontro escrevendo.
Sobre qualquer coisa, que eu conheça.
E só de me conhecer,
Naturalmente depressiva,
Depressivamente útil,
Eu me dou por satisfeita.
Vida é satisfação.E a minha, é satisfatoriamente, triste